segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Inaugurou dia 14 de Outubro de 2017 em Ovar, uma exposição 
 " Diálogo a carvão entre a mão e o olhar do artista"



As Varinas e gentes de Alfama de Luís Dourdil
© All rights reserved



O Director do Museu de Ovar, Prof. Manuel Cleto,o filho do pintor, Dr. Luis Fernando Dourdil e o Dr.Jorge Bacelar.



Museu de Ovar exposição 
 " Diálogo a carvão entre a mão e o olhar do artista" na tela passava uma projecção de obras do pintor.
Na imagem Óleo s/tela, 1964 do Museu Municipal de Arte Moderna Abel Manta/Gouveia.


O Director do Museu e o filho do Pintor.












Luis Dourdil  é senhor de uma obra coerente ancorada num desenho ordenado de linha continua e fragmentada de cor urdida em paletas que ora do vermelho e amarelo, se fundem depois nas cores surdas dos cinzas e azuis negros. 



Seja pintura, desenho a carvão ou pastel, independentemente da escala, pintura de cavalete ou mural, é uma obra que integra a figura humana como motivo de eleição.
A geometria da figura não corresponde de todo as figuras geométricas.





 Bem pelo contrário agencia aquela liberdade que aspira à quebra  da linha, à interrupção do desenho à ausência de terminar a linha de contorno, aflorando uma tendência para o abstracto.


Aflorando tal não significa que Dourdil se remeta para esse universo, mas a fluidez da linha, o desprendimento das formas acabam por viabilizar essa proposta de entendimento.
Mais a figura e a condição humanas encontram-se associadas.



Primeiro na representação das figuras populares enquanto motivo  plástico. As mulheres na simplicidade das suas tarefas, as vendedeiras, peixeiras, leiteiras: uma com uma braçada de limões, enquanto outra mostra o peixe, ou sentada numa pausa, ou simplesmente paradas num momento para conversar trazendo o filho ao colo.




Corpos que enchem a superfície da tela do papel ou da parede.
Corpos monumentais que nos remetem para a pintura italiana de
Giotto a Massacio, onde o cubismo pós-guerra se cruza delicadamente.






Outros temas como pescadores e barcos (Olhão) assim como as varinas, são também trabalhadas por Dourdil, não apenas como motivo plástico, mas ainda na dimensão da condição humana que enraízava na consciência sócio-politica que o neorrealismo  presente nas Gerais de Artes Plásticas (1946-1956, S.N.B.A.)      integrava. 



De facto, a passagem de Dourdil pelas Gerais, ainda em quarenta, confirma esta propensão partilhada por tantos artistas plásticos durante as duas décadas em referencia.





Outros temas como pescadores e barcos (Olhão) assim como as varinas, são também trabalhadas por Dourdil, não apenas como motivo plástico, mas ainda na dimensão da condição humana que enraízava na consciência sócio-politica que o neorrealismo  presente nas Gerais de Artes Plásticas (1946-1956, S.N.B.A.)      integrava. 


Luis Dourdil e a figura como motivo
" por Cristina Azevedo Tavares


Texto : "LUIS DOURDIL E A FIGURA COMO MOTIVO"
 ( excerto) de CRISTINA AZEVEDO TAVARES ( Presidente da Direcção  da Sociedade Nacional de Belas Artes) in 
"A Pintura Antes de Tudo"  - Catálogo Comemorativo do  Nascimento do pintor. 2014 /2015


Exposição de desenhos e pintura de Luis Dourdil

Exposição de desenhos e pintura de Luis Dourdil

terça-feira, 10 de outubro de 2017

PINTURA PORTUGUESA SEC.XX



(...)
As figuras do início sofriam discretas geometrizações, beneficiando de uma osmose quase gráfica esplendorosa,dos fragmentos morfológicos e da sua quase solene presença no espaço.
Foi esta técnica que, sempre semelhante na diferença, estruturou cada vez mais o trabalho plástico do artista,tanto no desenho 
como na pintura.
Luís Dourdil trouxe de um pós neo-realismo já desfocado para a orla de uma abstracção incompleta, lírica, estilisticamente superior (...)
© All rights reserved 
Rocha de Sousa








                            Pintura a óleo de Luís Dourdil  Ano c. 1955/56  © All rights reserved



                                                    "A luz que vibre

                                                               sobre o teu rosto

                                                                      O mar que oscile

                                                                              sob os teus ombros

                                                           
                                                                 O que me atinge

                                                                               vem de mais longe

                                                                                         lá dos confins

                                                                                               em que te sonho"



                                                                                    David Mourão-Ferreira



LUIS DOURDIL 1914 - 1989


"e ao anoitecer adquires nome de ilha ou de vulcão
deixas viver sobre a pele uma criança de lume 
e na fria lava da noite ensinas ao corpo 
a paciência o amor o abandono das palavras 
o silêncio 
e a difícil arte da melancolia"

Al Berto




Pintura Mural (Fragmento) Café Império em Lisboa.

Um dos seus trabalhos de referência, o mural do Café Império, foi devolvido à cidade, após um cuidado restauro, no ano que se celebrou o seu centenário 2014/2015.
 Com uma área de 48m2, o mural é uma monumental obra decorativa executada a têmpera, no ano de 1955. Representa uma série de “conversações” num mesmo plano, revelando um notável sentido de composição e de ritmo, aliando, num raro equilíbrio, a pura linguagem da cor e um subtil jogo de transparências abstracionista.


Dourdil dialogava constantemente com os s/quadros, num processo que ele descrevia da seguinte forma: 
“Preciso de parar constantemente de pintar para poder proporcionar e receber as sugestões que o quadro me vai dando à medida que nele avanço”.

Atravessando quase todo o século XX, é bastante vasta a galeria das obras de Luis Dourdil que regista uma vida inteira dedicada ao desenho e à pintura, expressão plástica que o artista definiu como: “Uma tela não está pintada por estar toda “tintada”, está, sim, quando, compositivamente, as formas nela definidas pela cor pelo desenho se harmonizam entre si e exprimem o que o pintor nos quis comunicar”.

Sobre a obra deste pintor, escreveu Rui Mário Gonçalves: “Nos seus quadros ricos de transparência, sente-se uma passagem perfeita dos primeiros aos últimos planos, e atinge-se o acordo entre a figura humana e a envolvência atmosférica numa harmonia tão íntima num equilíbrio tão justo, que deixa de ser necessário o contorno que individualiza a figura, para que seja amortecido o rigor do contacto entre o sólido e o fluído”.

Também Raul Rego o caracterizou: 
“Era uma sensibilidade extraordinária, o Luís Dourdil; e como essa sensibilidade se aliava a grandes conhecimentos de arte e ao domínio inteiro da técnica, em particular do desenho, o Dourdil tinha todas as condições para ter sido um nome de primeiro plano na Arte Portuguesa do nosso tempo. O seu desenho tem uma leveza e, ao mesmo tempo, uma força que marcam a personalidade do artista”.


segunda-feira, 9 de outubro de 2017

DOURDIL EM OVAR


"Varinas" 
  Memórias no trajecto plástico de Luís Dourdil e Exposição em Ovar dia 14 de Outubro de 2017.



 " Diálogo a carvão entre a mão e o olhar do artista"





As varinas ou ovarinas do século XIX e primeira metade do século XX, são originárias das regiões costeiras a norte do rio Mondego, sobretudo da região de Ovar.
Migravam sazonalmente para a pesca do sável no rio Tejo e, quando a época terminava, regressavam habitualmente às suas terras.
Progressivamente, foram-se fixando em Lisboa, em bairros típicos como a Madragoa e Alfama, ou junto ao rio, constituindo várias comunidades piscatórias. De canastra à cabeça, percorriam os populares bairros lisboetas, apregoando o peixe de porta em porta.



 Crayon S/ Papel 80 X 57" Varinas de Lisboa" de Luís Dourdil Colecção C.M.L.



                                                  
                              "Varinas de Luís Dourdil"-Colecção Museu Municipal de Coimbra
                                           © All rights reserved



Um dos temas mais abordados pelo pintor nos anos 40 e 50 foram os Bairros lisboetas, trabalhadores, gente anónima do meio urbano na sua azafama.

Luís Dourdil iniciou sua carreira no figurativismo, e evoluiu depois para representações que o combinam com o abstraccionismo.


                             "Varinas de Luís Dourdil"   © All rights reserved


As varinas eram mães, mulheres trabalhadoras, resistentes e praticamente indomáveis. Nos anos 80 a 90 acabaram por desaparecer, passando das ruas para as bancas dos mercados, mas são ainda recordadas como símbolo e ícone da cidade de Lisboa. Com a evolução das tecnologias de congelação e refrigeração do pescado, a abertura das grandes superfícies comerciais e o melhoramento nos serviços de distribuição, tornou-se difícil resistir. Na altura, a maior parte delas virou-se para a costura ou para as limpezas.


De pé descalço e canastra à cabeça: Olha a bela da sardinha!




                           "Varinas" Pintura a Óleo Luís Dourdil
                                                             © All rights reserved




                                                "Varinas" Pintura a Óleo Luís Dourdil
                                                             © All rights reserved

Apesar da “extinção”, a figura da varina prevalece cristalizada, principalmente graças às marchas populares. Na arte, e como mostra a selecção apresentada pelo Museu de Lisboa, foram a inspiração para diversos autores, como;
 Almada Negreiros, João Abel Manta, Luís Dourdil, Alice Jorge, Stuart Carvalhais ou Jorge Barrada. 



Aliás, mesmo o físico Albert Einstein admitiu ficar impressionado com estas mulheres, como o descreveu no diário onde relatou a sua viagem por Lisboa.

Maria Beatriz Raposo



   
"O Museu de Ovar é um tesouro para quem da cultura tenha uma concepção global”

José Saramago in viagens a Portugal

"Peixeira de Ovar




Ovar caracteriza-se pelas casas de azulejos multicolores, na profusão de cores e 
padrões, em contraste com a singeleza das cantarias que fazem dela um museu vivo do azulejo.





O Concelho de Ovar localiza-se no Distrito de Aveiro, confrontando a Norte com o Concelho de Espinho, a nascente com os Concelhos de Santa Maria da Feira e Oliveira de Azeméis, a Sul com o Concelho de Estarreja e Murtosa e a poente com o Oceano Atlântico, ocupando uma posição privilegiada no litoral norte.






Museu de Ovar fotos de Antonieta Figueiredo




O seu regular desenvolvimento sócio-económico associa-se à proximidade do Mar e da Ria, à fertilidade do solo e à planura da região.



Câmara Municipal de Ovar




Tribunal de Ovar 




O  Museu de Ovar foi fundado  por José Augusto de Almeida  a 8 de Janeiro de 1961.
Recentemente homenageado, foi dado o seu nome a uma "Sala de Exposições"num tributo que fez reavivar a memória, o empenho e o entusiasmo decisivo de José Augusto de Almeida na fundação do Museu de Ovar e na angariação de obras de artes de grandes artistas, ceramistas e pintores, que enriqueceram o seu valioso espólio como  nos contou o actual director Professor Manuel Cleto.





Neste museu é contada a história de Ovar e das suas gentes através da riqueza da colecção de trajes regionais de Ovar e de todas as regiões de Portugal, os delicados bordados, objectos relacionados com antigos costumes e profissões, exemplos da arquitectura e interiores das casas populares compõem parte da exposição, cujo trabalho de conservação e registo é elaborado por duas dedicadas senhoras que há mais de 20 anos fazem parte desta instituição, grandes profissionais Leonor e Lurdes.




Tendo como missão, recolher, estudar, conservar e divulgar o património cultural das gentes de Ovar o acervo é constituído essencialmente por objectos de arte e etnografia, que ao longo dos anos foi enriquecido através de doações de variadíssimas entidades públicas e particulares.


Realçam-se, ainda, centenas de bonecas provenientes de muitos países e uma valiosa colecção de pintura e cerâmica contemporâneas.




Museu de Ovar


O Museu de Ovar é uma instituição com mais de cinco décadas de existência e com uma acção directa na cultura, através de exposições, palestras, participação em eventos, divulgação de documentação, entre muitas, e diversificadas outras actividades.





Com um património também invejável, relacionado com pintura, fotografia, etnografia e arte africana, rico de trajes e costumes da região, contém valiosa colecção de pintura contemporânea. 

O trabalho desenvolvido pelo actual Director do Museu Manuel Cleto, é notável e reconhecido.
Com uma invulgar sensibilidade e dedicação tem sabido conjugar exposições de artistas consagrados, ao mesmo tempo que dá oportunidade a artistas mais jovens.






"Lavrador de Ovar"

As curiosas Capelas dos Passos, a Semana Santa, a Procissão dos "Terceiros" de ricos andores e a dos Passos saindo da Igreja Matriz são testemunho de tradições religiosas.



Luís Dourdil - Museu Ovar




"Peixeira de Ovar" 



Museu Ovar dia 14 de Outubro 15 horas- Exposição.

(...) Recordar, revisitar, repetir de todos os modos, qualquer forma de aceder ao pintor Luís Dourdil, é favorecer a manutenção da memória e da sua identidade plástica; é promover a continuação de estudos e as mais variadas fruições; é trazer para os grandes públicos e disponibilizar um dos artistas do século XX com obra de relevo; é sobretudo combater a finitude da condição humana, contrapondo pertinente a intemporalidade das suas composições plásticas.
E se essa intemporalidade pode de facto contrariar o esquecimento e o ostracismo, que muitas vezes apanha tão desprevenida, quanto indefesa, a obra criada, será pois na ritualização temporal que podemos contrariar esta e outras circunstâncias, num círculo contínuo de construção e reconstrução da identidade da arte e do património e do seu garante memória.
E, se admitirmos que o fundamento do tempo é essa memória, parece pois ser possível considerar que a exaltámos, cumprindo com a homenagem justa e a divulgação substantiva.

Maria Teresa Bispo 
Licenciada em História pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa; Mestre em Arte, Património e Restauro pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa;





sexta-feira, 6 de outubro de 2017

Pintura Portuguesa Sec XX



Luis Dourdil
 O lápis como instrumento soberano.
Desenho e Pintura são a complementaridade existente entre as duas linguagens preferenciais do autor, o modo como a pintura se libertava do desenho e o modo como o desenho se assumia como linguagem sintética, reduzindo-se ao essencial, depurando-se em traços quase reduzidos a uma sugestão formal. 






Luís Dourdil






LUÍS César Pena DOURDIL, Pintor e Desenhador, nasceu em Coimbra, a 08-11-1914, e faleceu em Lisboa, a 29-09-1989. Autodidacta, é autor de uma obra de fundo lírico que tem como tema constante a figura humana.
Recompondo líricamente um universo de formas conhecidas, leva a relação figurativa abstracta ao seu máximo limite, aproximando a nossa visão da essência e da estrutura dos corpos, numa poética do essencial e do silêncio. Como muralista, notabilizou-se principalmente com o painel do “Café Império”, em Lisboa.

Ao longo da sua obra também manteve o binómio desenho/pintura e, tanto mais quanto começou por desenhar gente anónima da vivência quotidiana de Lisboa, cidade onde viveu e teve Ateliê, como por exemplo a tela Ruas de Alfama mostra. O seu quadro Peixeira Sentada (1960) é uma das suas obras mais conhecidas. Para além da placa toponímica, Lisboa também acolheu a arte de Dourdil muralista no painel de 25 m² do hall do Laboratório Sanitas em 1945 ( que hoje está no Museu da Farmácia/Assocociação Nacacional de Farmácias), na pintura mural de 16 m² do Foyer de Honra do Cinema Império (1945), no mural 50 m² do Restaurante panorâmico do Monsanto (1967), bem como na exposição Lisboa na Obra dos Artistas Contemporâneos (1971).

Obteve em 1965 o Prémio de Desenho da Casa da Imprensa e em 1984 o primeiro Prémio de Pintura do Ministério da Cultura. Está representado no Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, na Sociedade Nacional de Belas Artes, no Museu do Chiado /Museu Nacional de Arte Contemporânea, no Museu da Electricidade, no Museu Abel Manta (Gouveia), no Museu de Amarante, no Museu Machado de Castro (Coimbra), no Museu Tavares Proença Júnior (Castelo Branco), e no museu de Serralves (Porto).

O seu nome faz parte da Toponímia de: Almada (Freguesia da Charneca de Caparica); Cascais; Lisboa (Freguesia de Marvila. Edital de 26-12-2001); Seixal (Freguesia de Fernão Ferro); Sesimbra.
Fonte: “Quem É Quem, Portugueses Célebres”, (Círculo de Leitores, Coordenação de Leonel de Oliveira, Edição de 2008, Pág. 193).
Fonte: “Câmara Municipal de Lisboa – Toponímia de Lisboa”

Link;


Freguesia de Marvila
(Planta: Sérgio Dias)

segunda-feira, 28 de agosto de 2017

Pintura Portuguesa Sec. XX - Luis Dourdil



Letra para um hino

É possível falar sem um nó na garganta
é possível amar sem que venham proibir
é possível correr sem que seja fugir.
Se tens vontade de cantar não tenhas medo: canta.

É possível andar sem olhar para o chão
é possível viver sem que seja de rastos.
Os teus olhos nasceram para olhar os astros
se te apetece dizer não grita comigo: não.

É possível viver de outro modo. É
possível transformares em arma a tua mão.
É possível o amor. É possível o pão.
É possível viver de pé.

Não te deixes murchar. Não deixes que te domem.
É possível viver sem fingir que se vive.
É possível ser homem.
É possível ser livre livre livre.


Manuel Alegre








Óleo s/tela, ano de 1963 de Luis Dourdil


"Preciso de parar constantemente de pintar para poder proporcionar e receber as sugestões que o quadro me vai dando à medida que nele avanço".
Luis Dourdil.







Óleo s/ Platex c. de 1930 de Luis Dourdil    © All rights reserved

domingo, 27 de agosto de 2017

ILUSTRAÇÕES




A Grande Aventura romance, 1941 capa com ilustração de Luís Dourdil.


Tendo nascido em Cabo Verde, Artur Augusto da Silva veio a passar a sua infância e adolescência entre Portugal e a Guiné. Alguns anos depois de concluir o curso de Direito, em Lisboa, partiu para Angola.
Aí permaneceu durante o final dos anos trinta e início dos anos quarenta, radicando-se na Guiné no final dessa mesma década.






Artur Augusto [da Silva] 1912-1983, A Grande Aventura 1941.
Capa de Luís Dourdil 1914-1989.

Ilustrações de Luis Dourdil



Alice Ogando 1900-1981, Marias da Minha Terra 1934
Capa de Luís Dourdil 1914-1989















https://pt.wikipedia.org/wiki/Alice_Ogando



Marias da Minha Terra




Essas Marias tafues                                   E aquela que vindima                    
Que passeiam no Chiado                           Desde manhã ao sol pôr
Com seus vestidos azues                            A quem o trabalho anima
E pesito bem calçado,                                Por amor do seu amor

As unhas côr de tomate,                            Essa que lava cantando
Sobrancelhas a carvão,                             Cantigas ao desafio,
A linda bôca escarlate                               Suas máguas segredando
E vazio o coração,                                    Ás verdes águas do rio.

Não são como tu, Maria,                          Aquela de loira trança
– Marias da minha terra –                         Como uma espiga doirada,
da Senhora da Agonia                              Que sonha amor e esperança
E mais do Senhor da Serra,                       Em noite de desfolhada.

Do Penedo da Saudade,                            E tu, Maria da Graça,
Das eiras, da desfolhada,                           E tu, Maria do Ceu,
São Marias da Cidade,                              Que ninguem na aldeia calça
– Não são Marias nem nada.                     Sapatinho igual ao teu,

Tu sim, que passas airosa                           Marias todas verdade,
Minha linda moleirinha                                Marias só – coisa pouca –
Mais branca que a branca rosa                   Apenas simplicidade,
Tão branca como a farinha.                        Coração ao pé da boca.

E tu, que passas ligeira,                               Marias que passam vidas
De tamanquinha no pé,                                Inteirinhas a rezar
A Maria mais trigueira                                 Pelas alminhas perdidas
Da praia da Nazareth.                          Por sôbre as águas do mar.

Essa de saia rodada                                    Quiz cantar o vosso encanto,
Como uma rosa em botão,                          Toda a alegria que encerra
A quem já vejo brilhar                                 Este nome, que é um canto
Nos olhos, o coração.                                 Em louvor da nossa terra!

Alice Ogando 1900-1981

Ilustrações de Luis Dourdil

"Eu poderia suportar, embora não sem dor, que tivessem morrido todos os meus amores, mas enlouqueceria se morressem todos os meus amigos!"
Vinícius de Moraes

Ilustrações caricaturas de Luís Dourdil década de 1930.
Colecção particular .© All rights reserved




Luís Dourdil na Brasileira do Chiado "tertuliando" desenhou o seu auto retrato numa mesa.





Ilustrações caricaturas de Luís Dourdil década de 1930.
Colecção particular .© All rights reserved


"Quem já passou por essa vida e não viveu, pode ser mais, mas sabe menos do que eu..."

Vinícius de Moraes