segunda-feira, 9 de outubro de 2017

DOURDIL EM OVAR


"Varinas" 
  Memórias no trajecto plástico de Luís Dourdil e Exposição em Ovar dia 14 de Outubro de 2017.



 " Diálogo a carvão entre a mão e o olhar do artista"





As varinas ou ovarinas do século XIX e primeira metade do século XX, são originárias das regiões costeiras a norte do rio Mondego, sobretudo da região de Ovar.
Migravam sazonalmente para a pesca do sável no rio Tejo e, quando a época terminava, regressavam habitualmente às suas terras.
Progressivamente, foram-se fixando em Lisboa, em bairros típicos como a Madragoa e Alfama, ou junto ao rio, constituindo várias comunidades piscatórias. De canastra à cabeça, percorriam os populares bairros lisboetas, apregoando o peixe de porta em porta.



 Crayon S/ Papel 80 X 57" Varinas de Lisboa" de Luís Dourdil Colecção C.M.L.



                                                  
                              "Varinas de Luís Dourdil"-Colecção Museu Municipal de Coimbra
                                           © All rights reserved



Um dos temas mais abordados pelo pintor nos anos 40 e 50 foram os Bairros lisboetas, trabalhadores, gente anónima do meio urbano na sua azafama.

Luís Dourdil iniciou sua carreira no figurativismo, e evoluiu depois para representações que o combinam com o abstraccionismo.


                             "Varinas de Luís Dourdil"   © All rights reserved


As varinas eram mães, mulheres trabalhadoras, resistentes e praticamente indomáveis. Nos anos 80 a 90 acabaram por desaparecer, passando das ruas para as bancas dos mercados, mas são ainda recordadas como símbolo e ícone da cidade de Lisboa. Com a evolução das tecnologias de congelação e refrigeração do pescado, a abertura das grandes superfícies comerciais e o melhoramento nos serviços de distribuição, tornou-se difícil resistir. Na altura, a maior parte delas virou-se para a costura ou para as limpezas.


De pé descalço e canastra à cabeça: Olha a bela da sardinha!




                           "Varinas" Pintura a Óleo Luís Dourdil
                                                             © All rights reserved




                                                "Varinas" Pintura a Óleo Luís Dourdil
                                                             © All rights reserved

Apesar da “extinção”, a figura da varina prevalece cristalizada, principalmente graças às marchas populares. Na arte, e como mostra a selecção apresentada pelo Museu de Lisboa, foram a inspiração para diversos autores, como;
 Almada Negreiros, João Abel Manta, Luís Dourdil, Alice Jorge, Stuart Carvalhais ou Jorge Barrada. 



Aliás, mesmo o físico Albert Einstein admitiu ficar impressionado com estas mulheres, como o descreveu no diário onde relatou a sua viagem por Lisboa.

Maria Beatriz Raposo



   
"O Museu de Ovar é um tesouro para quem da cultura tenha uma concepção global”

José Saramago in viagens a Portugal

"Peixeira de Ovar




Ovar caracteriza-se pelas casas de azulejos multicolores, na profusão de cores e 
padrões, em contraste com a singeleza das cantarias que fazem dela um museu vivo do azulejo.





O Concelho de Ovar localiza-se no Distrito de Aveiro, confrontando a Norte com o Concelho de Espinho, a nascente com os Concelhos de Santa Maria da Feira e Oliveira de Azeméis, a Sul com o Concelho de Estarreja e Murtosa e a poente com o Oceano Atlântico, ocupando uma posição privilegiada no litoral norte.






Museu de Ovar fotos de Antonieta Figueiredo




O seu regular desenvolvimento sócio-económico associa-se à proximidade do Mar e da Ria, à fertilidade do solo e à planura da região.



Câmara Municipal de Ovar




Tribunal de Ovar 




O  Museu de Ovar foi fundado  por José Augusto de Almeida  a 8 de Janeiro de 1961.
Recentemente homenageado, foi dado o seu nome a uma "Sala de Exposições"num tributo que fez reavivar a memória, o empenho e o entusiasmo decisivo de José Augusto de Almeida na fundação do Museu de Ovar e na angariação de obras de artes de grandes artistas, ceramistas e pintores, que enriqueceram o seu valioso espólio como  nos contou o actual director Professor Manuel Cleto.





Neste museu é contada a história de Ovar e das suas gentes através da riqueza da colecção de trajes regionais de Ovar e de todas as regiões de Portugal, os delicados bordados, objectos relacionados com antigos costumes e profissões, exemplos da arquitectura e interiores das casas populares compõem parte da exposição, cujo trabalho de conservação e registo é elaborado por duas dedicadas senhoras que há mais de 20 anos fazem parte desta instituição, grandes profissionais Leonor e Lurdes.




Tendo como missão, recolher, estudar, conservar e divulgar o património cultural das gentes de Ovar o acervo é constituído essencialmente por objectos de arte e etnografia, que ao longo dos anos foi enriquecido através de doações de variadíssimas entidades públicas e particulares.


Realçam-se, ainda, centenas de bonecas provenientes de muitos países e uma valiosa colecção de pintura e cerâmica contemporâneas.




Museu de Ovar


O Museu de Ovar é uma instituição com mais de cinco décadas de existência e com uma acção directa na cultura, através de exposições, palestras, participação em eventos, divulgação de documentação, entre muitas, e diversificadas outras actividades.





Com um património também invejável, relacionado com pintura, fotografia, etnografia e arte africana, rico de trajes e costumes da região, contém valiosa colecção de pintura contemporânea. 

O trabalho desenvolvido pelo actual Director do Museu Manuel Cleto, é notável e reconhecido.
Com uma invulgar sensibilidade e dedicação tem sabido conjugar exposições de artistas consagrados, ao mesmo tempo que dá oportunidade a artistas mais jovens.






"Lavrador de Ovar"

As curiosas Capelas dos Passos, a Semana Santa, a Procissão dos "Terceiros" de ricos andores e a dos Passos saindo da Igreja Matriz são testemunho de tradições religiosas.



Luís Dourdil - Museu Ovar




"Peixeira de Ovar" 



Museu Ovar dia 14 de Outubro 15 horas- Exposição.

(...) Recordar, revisitar, repetir de todos os modos, qualquer forma de aceder ao pintor Luís Dourdil, é favorecer a manutenção da memória e da sua identidade plástica; é promover a continuação de estudos e as mais variadas fruições; é trazer para os grandes públicos e disponibilizar um dos artistas do século XX com obra de relevo; é sobretudo combater a finitude da condição humana, contrapondo pertinente a intemporalidade das suas composições plásticas.
E se essa intemporalidade pode de facto contrariar o esquecimento e o ostracismo, que muitas vezes apanha tão desprevenida, quanto indefesa, a obra criada, será pois na ritualização temporal que podemos contrariar esta e outras circunstâncias, num círculo contínuo de construção e reconstrução da identidade da arte e do património e do seu garante memória.
E, se admitirmos que o fundamento do tempo é essa memória, parece pois ser possível considerar que a exaltámos, cumprindo com a homenagem justa e a divulgação substantiva.

Maria Teresa Bispo 
Licenciada em História pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa; Mestre em Arte, Património e Restauro pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa;





sexta-feira, 6 de outubro de 2017

Pintura Portuguesa Sec XX



Luis Dourdil
 O lápis como instrumento soberano.
Desenho e Pintura são a complementaridade existente entre as duas linguagens preferenciais do autor, o modo como a pintura se libertava do desenho e o modo como o desenho se assumia como linguagem sintética, reduzindo-se ao essencial, depurando-se em traços quase reduzidos a uma sugestão formal. 






Luís Dourdil






LUÍS César Pena DOURDIL, Pintor e Desenhador, nasceu em Coimbra, a 08-11-1914, e faleceu em Lisboa, a 29-09-1989. Autodidacta, é autor de uma obra de fundo lírico que tem como tema constante a figura humana.
Recompondo líricamente um universo de formas conhecidas, leva a relação figurativa abstracta ao seu máximo limite, aproximando a nossa visão da essência e da estrutura dos corpos, numa poética do essencial e do silêncio. Como muralista, notabilizou-se principalmente com o painel do “Café Império”, em Lisboa.

Ao longo da sua obra também manteve o binómio desenho/pintura e, tanto mais quanto começou por desenhar gente anónima da vivência quotidiana de Lisboa, cidade onde viveu e teve Ateliê, como por exemplo a tela Ruas de Alfama mostra. O seu quadro Peixeira Sentada (1960) é uma das suas obras mais conhecidas. Para além da placa toponímica, Lisboa também acolheu a arte de Dourdil muralista no painel de 25 m² do hall do Laboratório Sanitas em 1945 ( que hoje está no Museu da Farmácia/Assocociação Nacacional de Farmácias), na pintura mural de 16 m² do Foyer de Honra do Cinema Império (1945), no mural 50 m² do Restaurante panorâmico do Monsanto (1967), bem como na exposição Lisboa na Obra dos Artistas Contemporâneos (1971).

Obteve em 1965 o Prémio de Desenho da Casa da Imprensa e em 1984 o primeiro Prémio de Pintura do Ministério da Cultura. Está representado no Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, na Sociedade Nacional de Belas Artes, no Museu do Chiado /Museu Nacional de Arte Contemporânea, no Museu da Electricidade, no Museu Abel Manta (Gouveia), no Museu de Amarante, no Museu Machado de Castro (Coimbra), no Museu Tavares Proença Júnior (Castelo Branco), e no museu de Serralves (Porto).

O seu nome faz parte da Toponímia de: Almada (Freguesia da Charneca de Caparica); Cascais; Lisboa (Freguesia de Marvila. Edital de 26-12-2001); Seixal (Freguesia de Fernão Ferro); Sesimbra.
Fonte: “Quem É Quem, Portugueses Célebres”, (Círculo de Leitores, Coordenação de Leonel de Oliveira, Edição de 2008, Pág. 193).
Fonte: “Câmara Municipal de Lisboa – Toponímia de Lisboa”

Link;


Freguesia de Marvila
(Planta: Sérgio Dias)

segunda-feira, 28 de agosto de 2017

Pintura Portuguesa Sec. XX - Luis Dourdil



Letra para um hino

É possível falar sem um nó na garganta
é possível amar sem que venham proibir
é possível correr sem que seja fugir.
Se tens vontade de cantar não tenhas medo: canta.

É possível andar sem olhar para o chão
é possível viver sem que seja de rastos.
Os teus olhos nasceram para olhar os astros
se te apetece dizer não grita comigo: não.

É possível viver de outro modo. É
possível transformares em arma a tua mão.
É possível o amor. É possível o pão.
É possível viver de pé.

Não te deixes murchar. Não deixes que te domem.
É possível viver sem fingir que se vive.
É possível ser homem.
É possível ser livre livre livre.


Manuel Alegre








Óleo s/tela, ano de 1963 de Luis Dourdil


"Preciso de parar constantemente de pintar para poder proporcionar e receber as sugestões que o quadro me vai dando à medida que nele avanço".
Luis Dourdil.







Óleo s/ Platex c. de 1930 de Luis Dourdil    © All rights reserved

domingo, 27 de agosto de 2017

ILUSTRAÇÕES




A Grande Aventura romance, 1941 capa com ilustração de Luís Dourdil.


Tendo nascido em Cabo Verde, Artur Augusto da Silva veio a passar a sua infância e adolescência entre Portugal e a Guiné. Alguns anos depois de concluir o curso de Direito, em Lisboa, partiu para Angola.
Aí permaneceu durante o final dos anos trinta e início dos anos quarenta, radicando-se na Guiné no final dessa mesma década.






Artur Augusto [da Silva] 1912-1983, A Grande Aventura 1941.
Capa de Luís Dourdil 1914-1989.

Ilustrações de Luis Dourdil



Alice Ogando 1900-1981, Marias da Minha Terra 1934
Capa de Luís Dourdil 1914-1989















https://pt.wikipedia.org/wiki/Alice_Ogando



Marias da Minha Terra




Essas Marias tafues                                   E aquela que vindima                    
Que passeiam no Chiado                           Desde manhã ao sol pôr
Com seus vestidos azues                            A quem o trabalho anima
E pesito bem calçado,                                Por amor do seu amor

As unhas côr de tomate,                            Essa que lava cantando
Sobrancelhas a carvão,                             Cantigas ao desafio,
A linda bôca escarlate                               Suas máguas segredando
E vazio o coração,                                    Ás verdes águas do rio.

Não são como tu, Maria,                          Aquela de loira trança
– Marias da minha terra –                         Como uma espiga doirada,
da Senhora da Agonia                              Que sonha amor e esperança
E mais do Senhor da Serra,                       Em noite de desfolhada.

Do Penedo da Saudade,                            E tu, Maria da Graça,
Das eiras, da desfolhada,                           E tu, Maria do Ceu,
São Marias da Cidade,                              Que ninguem na aldeia calça
– Não são Marias nem nada.                     Sapatinho igual ao teu,

Tu sim, que passas airosa                           Marias todas verdade,
Minha linda moleirinha                                Marias só – coisa pouca –
Mais branca que a branca rosa                   Apenas simplicidade,
Tão branca como a farinha.                        Coração ao pé da boca.

E tu, que passas ligeira,                               Marias que passam vidas
De tamanquinha no pé,                                Inteirinhas a rezar
A Maria mais trigueira                                 Pelas alminhas perdidas
Da praia da Nazareth.                          Por sôbre as águas do mar.

Essa de saia rodada                                    Quiz cantar o vosso encanto,
Como uma rosa em botão,                          Toda a alegria que encerra
A quem já vejo brilhar                                 Este nome, que é um canto
Nos olhos, o coração.                                 Em louvor da nossa terra!

Alice Ogando 1900-1981

Ilustrações de Luis Dourdil

"Eu poderia suportar, embora não sem dor, que tivessem morrido todos os meus amores, mas enlouqueceria se morressem todos os meus amigos!"
Vinícius de Moraes

Ilustrações caricaturas de Luís Dourdil década de 1930.
Colecção particular .© All rights reserved




Luís Dourdil na Brasileira do Chiado "tertuliando" desenhou o seu auto retrato numa mesa.





Ilustrações caricaturas de Luís Dourdil década de 1930.
Colecção particular .© All rights reserved


"Quem já passou por essa vida e não viveu, pode ser mais, mas sabe menos do que eu..."

Vinícius de Moraes


Ilustrações de Luis Dourdil - S.Banaboião Anacoreta e Mártir




“Num país pobre, em que todos andam a tinir,
não é de espantar que se repita a cada passo, à
capuche, o esbulho da vinha de Nabot.
Mas uma escandaleira destas ultrapassava os
limites da pouca-vergonha nacional, que era 
imensurável”.

Aquilino Ribeiro



https://pt.wikipedia.org/wiki/Aquilino_Ribeiro










Ilustrações  de Luis Dourdil no livro de Aquilino Ribeiro, S.Banaboião Anacoreta e Mártir.

"O que o homem mais aprecia, acima de grandezas,
glória, amor, acima do seu próprio pão para a boca, é a liberdade ..."
Aquilino Ribeiro



Sei que morrer é mais fácil do que se pensa e,
não obstante,
tenho medo da morte ..."
Aquilino Ribeiro
O Café era a Universidade e a antecâmara permanente da revolução. Cada um tinha os seus clientes, agrupados perla cor das ideias e da gravata: republicanos, aficionados, poetas, batoteiros, e seria milagre que acampasse por ali um só que não acusasse estigma. Desconhecido que aparecesse era tal um moiro na costa. De mesa para mesa voava a palavra de passe: 
Cuidado que pode ser bufo!"
In um Escritor Confessa-se"
Aquilino Ribeiro


                 





Desenhos de Luís Dourdil © All rights reserved no livro S.Banaboião Anacoreta e Mártir de
 Aquilino Ribeiro.





Desenho de Bocage de Luis Dourdil


Selo de correio com a figura de Bocage, com circulação em 1965,
quando passava o segundo centenário do seu nascimento, desenhado por Luís Dourdil.




Quase 50 anos separam as duas emissões filatélicas em que Bocage é personagem central: a primeira, de finais de Dezembro de 1966, com desenho de Luís Dourdil, numa série de três selos com os valores de 1$00, 2$00 e 6$00, respectivamente, destinada a assinalar os 200 anos do nascimento de Bocage.




http://nestahora.blogspot.pt/2015/03/bocage-em-selo-emissao-filatelica-de.html

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

Pintura Portuguesa

“...se antes de cada ato nosso nos puséssemos a prever todas as consequências dele, a pensar nelas a sério, primeiro as imediatas, depois as prováveis, depois as possíveis, depois as imagináveis, não chegaríamos sequer a mover-nos de onde o primeiro pensamento nos tivesse feito parar. Os bons e os maus resultados dos nosso ditos e obras vão-se distribuindo, supõe-se que de uma forma bastante uniforme e equilibrada, por todos os dias do futuro, incluindo aqueles, infindáveis, em que já cá não estaremos para poder comprova-lo, para congratular-nos ou pedir perdão, aliás, há quem diga que isso é que é a imortalidade de que tanto se fala.”
Ensaio Sobre a Cegueira - José Saramago






Óleo s/Tela 100 X 120 1969 Col/Banco de Portugal Luís Dourdil --© All rights reserved

Óleo s/Tela ano 1980 - 88 X 112 de Luís Dourdil colecção particular © All rights reserved 


"O orgulho é a consciência (certa ou errada) do nosso próprio mérito, a vaidade, a consciência (certa ou errada) da evidência do nosso próprio mérito para os outros.
Um homem pode ser orgulhoso sem ser vaidoso, pode ser ambas as coisas, vaidoso e orgulhoso, pode ser — pois tal é a natureza humana — vaidoso sem ser orgulhoso.
É difícil à primeira vista compreender como podemos ter consciência da evidência do nosso mérito para os outros, sem a consciência do nosso próprio mérito.
Se a natureza humana fosse racional, não haveria explicação alguma.
Contudo, o homem vive a princípio uma vida exterior, e mais tarde uma interior; a noção de efeito precede, na evolução da mente, a noção de causa interior desse mesmo efeito.
O homem prefere ser exaltado por aquilo que não é, a ser tido em menor conta por aquilo que é. É a vaidade em acção."

Fernando Pessoa, in "Da Literatura Europeia"

Luis Dourdil Memórias e registos



Seminario “A pintura mural em Luís Dourdil” de la Sección de Estudios do Patrimonio de la Sociedade de Geografía de Lisboa (Portugal)
 El Honorable Sr. D. Vitor Escudero de Campos, Caballero Honorario y Canciller del Capítulo de La Casa Troncal de los Doce Linajes de Soria en Portugal, nos remite esta noticia que publicamos

TEMOS DE FILTRAR A REALIDADE   Auditório Adriano Moreira 19 de Maio de 2015


Sociedade de Geografia de Lisboa

;http://www.socgeografialisboa.pt/?m=201505&cat=62
Auditório Adriano Moreira 19 de Maio de 2015





Maria Teresa Bispo (DPC-CML) e Luis Fernando Dourdil, filho do pintor.


Breve abordagem das memórias pessoais que acumularam informação sobre as vivências relacionais e criativas de Luís Dourdil. O testemunho concretiza-se através do tempo, também filtrado ora pelo olhar da criança, ora do jovem, ora do adulto em que me tornei. Filtrar a realidade para meu pai elaborava um instrumento de criação, no meu caso apenas um depoimento que substancie um contributo para o melhor entendimento da obra e da vida de um artista que nos deixou um legado considerável.





UM RETRATO INTIMISTA

NUMA BREVE EVOCAÇÃO DO PINTOR LUÍS DOURDIL, MEU PAI

Como se compreende não me é fácil falar do meu pai como pintor. Não sou crítico de arte nem pintor, nem tenho formação académica sobre Arte. Apenas possuo, isso sim o contacto diário com a sua pintura, bem como as visitas a ateliers de pintores seus amigos e nos olhos as imensas exposições de pintura que sempre acompanhei ao longo da vida.

Sempre que podia acompanhava-o nessas idas e tentava absorver o máximo das suas considerações e de outros pintores sobre os trabalhos expostos; pinturas, desenhos e esculturas. Cresci neste meio, apaixonado pelas várias manifestações de arte e aprendi muito com o meu pai e outros da sua geração. Hogan, Martins Correia, Bual, Lagoa Henriques, Marcelino Vespeira, Sá Nogueira, designadamente. Ainda muito novo frequentava com o meu pai a Brasileira do Chiado e ficava deslumbrado a ouvi-los falar.

Assim a minha abordagem, não obstante, é necessariamente mais de natureza intimista e menos técnica. Com sete anos de idade, pela mão da minha mãe Olinda, ia ver o meu pai pintar, o Mural no Café Império. 





Com essa idade pequenita, tudo para mim era de uma dimensão acrescida, gigantesca. Os anos foram passando e ainda que ele nunca tivesse gostado de que o vissem trabalhar, eu espreitava de longe, curioso, os seus gestos criativos. 




Recordo com saudade o primeiro atelier do meu pai na Av. de Madrid, perto da Av. De Roma, que ele dividia com um grande amigo, António Fernando dos Santos "Tóssan".


https://pt.wikipedia.org/wiki/Ant%C3%B3nio_Fernando_dos_Santos_(T%C3%B3ssan)

Mudou-se depois para um atelier, junto do Palácio do Coruchéus, tendo como vizinhos, entre outros, os pintores Manuel Lima, Victor Belém e Arlindo Vicente, o qual para além de ilustre advogado, foi igualmente um pintor talentoso.
Aqui se manteve até ao seu falecimento no dia 29 de Setembro de 1989.



Porém, para que conste, devo dizer que ainda solteiro teve o seu primeiro atelier, na Rua da Fé, freguesia de S. José em Lisboa, espaço que dividia (a meias) com um seu amigo de sempre, o Martins Correia escultor; admiração mútua que se manteve ao longo das respectivas carreiras. Um dia o meu pai confidenciou-me que se o Martins Correia “tivesse nascido em Itália teria sido um Marini”.
Por volta dos meus dez anos, aos fins-de-semana, era-me muito grato acompanhá-lo à lota da Ribeira e vê-lo desenhar as gentes do povo, as varinas e as suas canastras, peixeiras e peixeiros, as bancas, toda aquela azáfama tumultuosa chapinhada de água turva, na musicalidade gritada de sons e pregões. E, estas cenas da lota, das quais tomava apontamentos escritos e desenhados, eram então transportados para largas folhas de papel e amplas telas através da memória, no silêncio do seu atelier.



Crayon S/ Papel 80 X 57" Varinas de Lisboa" de Luís Dourdil Colecção C.M.L.

Voltando, porém à memória do Café Império cujo restauro celebramos, não posso deixar de transcrever o que sobre ele escreveu o Prof, Rocha de Sousa – o crítico, o pintor e o analista arguto que, de há muitos anos a esta parte tem sido um estudioso da obra do meu pai:






(…)

desde logo a lógica da pintura parietal que Dourdil realizou para a decoração do Café Império, tempera a gema de ovo, é além de uma obra ímpar naquele género de forma plástica integrada, a peça paradigmática de formas e de ser do autor.




Ali podemos debater a eficácia de quem sabe entrosar subtilmente o poder estruturante, a representação em metamorfose e transparência, a natureza das matérias e dos matérias, o sentido cénico, a contenção e a sensibilidade, a exigência paciente da tecnologia e das técnicas. Tudo isto informou e reformou todas obras murais de Dourdil e a sua obra pictórica em geral: no fundo, ele partia sempre de pretextos ( ou materiais) que a realidade urbana lhe oferecia e de uma escrita que era simultaneamente suporte estrutural e já morfologia dinâmica. Não se pode dizer que estivesse assim procurando construir, com uma representação fragmentada, propostas plásticas de mensagem dirigida, de cunho denunciador quer ao tempo, do neo- realismo, quer na época sectária da luta entre figurativos e abstractos. Ele sempre soube que a validade última da obra de arte não se podia procurar nos temas, nos assuntos, ou no sentido óbvio da mensagem figurativa. Sabia que uma pintura é, antes de qualquer outra coisa, essencialmente pintura. (…)

Rocha de Sousa, O Sentido do Drama em Luís Dourdil, Rev. de Artes Plásticas, Ano 1, Número 1, Julho 1990, fls 14.








Assim, chegados ao dia de hoje defino o meu pai como um homem delicado cortês e discreto que tinha uma forma de estar na vida muito própria dele enquanto pintor e intelectual. Foi um autodidacta que estudou profundamente a pintura. Para além do dom inato que tinha estudou muito a figura humana e os tratados acerca da mesma.

Como homem e como pintor era um ser sensível e observador. De repente parava na rua e debruçava-se para apanhar uma folha seca – recordo-me que era dessas que gostava mais pela vibração do colorido que podiam ter – e dizia-me: - Olha Luís que bonita a associação de cores que a natureza criou nesta folha! - Era um homem que se prendia à cor, embora tivesse o desenho como matriz da sua pintura.

O meu pai era um sentimental sóbrio, foi um excelente pai. Hoje tenho a certeza que foi um dos maiores pintores do século XX.

Luís Fernando Dourdil