quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Luis Dourdil - OS ENCONTROS SUBMERSOS de Rocha de Sousa

 De cada vez que rompe o seu próprio limite, antigo nas contenções e no equilíbrio da beleza, Dourdil apenas apaga sinais supérfluos, nunca essa memória densa de personagens semi-encobertas que nos revela há dezenas de anos, nem esse modo de fazer displiscente e lírico,nem essa fidelidade a uma caligrafia pela qual simultâneamente nega e torna visível a ficção das coisas. Esse constante retorno a si mesmo, desde a serena tranlucidez da pintura mural às cronicas dos encontros sobre a relva, empurra o autor pela boca dos analistas intensamente atentos à moda dos  modos, para um espaço restrito dos estilos mais ou menos académicos - buraco negro da historia da arte actual portuguesa onde se encobrem nomes e obras...
(...)
Rocha de Sousa Abril 1986
In Cat. da Exp.da Livraria Bertrand

LUIS DIURDIL OU GEOMETRIA SENSÍVEL - FERNANDO DE AZEVEDO

(....)
Luis Dourdil andou por estes meandros da "secção de ouro" e da "porta da harmonia" e de outras formulações da raiz aristotélica e paciolitica, o bastante para aceitar e por ventura admirar a simbologia geométrica de Jacques Villon que muito preciosa lhe foi para essas difíceis abordagens. E andou o tempo bastante para usar esse relacionamento com a independência de quem aprende sozinho e sozinho solitariamente se encontra.(...) Mas o seu abraço ou fala o modo de sorrir eram, sem falha, tão imediatamente acolhedores!
Um pintor que, embora se visse, não se mostrava.(...) O cubista mais racional de todos Juan Gris, o qual dizia que de um rectângulo de cor ou de um plano fazia uma garrafa.O mesmo que Dourdil à distância fez com as figuras que foi encontrando numa espécie de "promenade" ritualizada ao sabor de uma simpatia humana desperta ao espectáculo da vida.Seres do acaso uns vagabundos,"motards", corpos perdidos sem desejo num banco de jardim, vultos: ou outro lado da vida, a inteireza de um corpo de peixeira na sua ortogonalidade sensual, diálogos sussurados de vendedeiras de mercado, belas como estátuas , seres todos eles, uns e outros de que um mundo suporta a existência ou, não por vezes, a sofrida inexistência.
Por esse labirinto ocupado que são a composição e a cena de um quadro de Dourdil passa, sente-se, e ouve-se um profundo silêncio. A força dramática da obra...

Alguma coisa desse silêncio e dessa gravidade assenta naqueles cinzentos, por vezes frios com que enroupa a sua humaníssima figuração.
Luis Dourdil é finalmente um admirável pintor do silencioso achamento da totalidade.
                                                              Fernando de Azevedo (2001)
In Cat. da Exp. Palácio Galveias Abril 2001

- Rocha de Sousa - DOURDIL: IMAGEM POÉTICA

(...)
AS figuras do início sofriam discretas geometrizações,beneficiando de uma osmose quase gráfica esplendorosa,dos fragmentos morfológicos e da sua quase solene presença no espaço. Foi esta técnica que, sempre semelhante na diferença, estruturou cada vez mais o trabalho plástico do artista,tanto no desenho como na pintura.
Exímio na têmpera e no óleo, Dourdil era refém do seu grande talento, da sua elegância plástica, na forma de manchar, de encandear as matérias, de conferir presença a restos das linhas de estrutura e de contorno - no imenso bom gosto, enfim, que imprimia a essas presenças ou misturas,pintura cada vez mais no tempo, pintura em todo caso sempre figurativa, filtragem do visível, imagem cuja carga poética se despojava, comovente, num espaço sem referências adicionais.
Foi recorrendo a essa espécie de fragmentos modeladores, a essa secreta geometria que sustentava silhuetas e contornos,anatomias e olhares, que o pintor realizou uma das mais belas pinturas murais - entre tapeçarias e frescos - de toda a arte portuguesa contemporânea
o painel do café Império, numa parede de faustosa horizontalidade e com a forte presença dos seus 48 metros quadrados, regular, dir-se-ia inatacável. Aí, usando têmpera de ovo, Dourdil criou um imenso espaço cénico, nem profundo nem apenas bidimensional, povoado de figuras humanas, ora sentadas ora de pé, em grupos também, na simplificação nivelada então garantida pela perfeição das soluções, dos meios tons, das sombras suaves e das distâncias lumínicas, rectangulares, tudo apreciável em travelling lateral, o lugar ou o labirinto da meia festa daquela gente emblemática, a execução solta e exacta, os valores macios, as arestas mais pressentidas do que ostentadas, um murmúrio de vida colectiva a mover-se em câmara lenta, sublinhando a ideia sem nomes do grande espaço cénico do café, memória de belas salas de fumo de teatros e cinemas.
Em certo sentido, no cume de uma obra a fazer-se, esta pintura já perdida pela incúria dos homens e dos seus interesses espúrios, resumia o percurso em curva longa e segura do trabalho a óleo que Dourdil trouxe de um pós neo-realismo já desfocado para a orla de uma abstracção incompleta, lírica, estilisticamente superior.
                                                                                  (...)
Rocha de Sousa


In catálogo da exposição Pintura Portuguesa Séc.XX.Coimbra:Museu da Cidade-Sala da Cidade,20 de Set.2001-27-Jan.2002

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Luis Dourdil-Pintores Portugueses do Século XX


  1. Retrato Talvez Saudoso da Menina Insular
Tinha o tamanho da praia
o corpo era de areia.
Ele próprio era o início
do mar que o continuava.
Destino de água salgada
principiado na veia.
E quando as mãos se estenderam
a todo o seu comprimento
e quando os olhos desceram
a toda a sua fundura
teve o sinal que anuncia
o sonho da criatura.
Largou o sonho nos barcos
que dos seus dedos partiam
que dos seus dedos paisagens
países antecediam.
E quando o seu corpo se ergueu
Voltado para o desengano
só ficou tranquilidade
na linha daquele além.
Guardada na claridade
do olhar que a retém.

Natália Correia

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Luis Dourdil-Pintores Portugueses do Século XX

Exposições /Pintura, Colectivas   50-90
                                                                              

Homenagem a artistas plásticos portugueses que nesse período tiveram grande relevância e que destes, alguns ainda continuam bem activos na sua criatividade. Autores presentes nesta exposição:

António Palolo, Carlos Calvet, Cesariny, Charrua, Cruzeiro Seixas, Gil Teixeira Lopes, Jorge Guimarães, Jorge Martins, Laranjeira Santos, Luis Dourdil, Nadir Afonso, Noronha da Costa, Pedro Chorão, Raul Perez e Victor Belém.




 Laranjeira Santos retratado por Dourdil em 1988                                 
 Laranjeira Santos  Escultor  contemporâneo com uma obra que oscila entre o lado figurativo e o abstracto.

 Na década de 60 foi bolseiro da Fundação Gulbenkian, em Roma. Trabalha a escultura em diferentes materiais.

 Dedica parte dos seus estudos e projectos ao seu tema     preferido – o corpo da mulher.              

Luis Dourdil-Pintores Portugueses do Século XX

 ARTE E O ENGENHO

  Livro comemorativo dos 20 anos do Grupo EFCIS (2011)com o objectivo de relacionar  a Empresa com a Arte.
Entre vários grandes pintores portugueses,destaque para Luis Dourdil.



quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Luis Dourdil-Pintores Portugueses do Século XX

INÉDITOS DE LUIS DOURDIL-Ano de 1959
"Nunca fui um paisagista.Parti sempre da forma real,mas só me interessei de facto pela figura humana.Parece que apenas nela encontro a beleza e a tragédia,ou partes articuláveis de uma nova ordem,um dinamismo interno-a pintura,antes de tudo"   Luis Dourdil

Luis Dourdil e a sua amiga e Pintora Gracinda Candeias-Pintores Portugueses do Século XX

 Era assim que o Dourdil me via pintar....e cá vai mais um texto!

COMPOSIÇÃO COM DOR DE DENTES

A meio da tarde o Dourdil ao entrar no meu atelier, fica extasiado com uma visão "deslumbrante" -segundo as palavras dele:
Gracinda não se mexa!
- Eu estava reclinada no sofá com um cobertor laranja a tapar as pernas e havia uns azuis e um quadro meu em tons pasteis, acima da minha cabeça, só quem via tudo isto era o Dourdil, eu respondo:
-Estou cheia de dores de dentes!
-Mas olhe está envolvida numa linda e inspiradora composição! E serrava os olhos e desenhava no espaço, depois deste «torpor» preocupa-se e vai à farmácia comprar-me um remédio, era assim a nossa cumplicidade!!


Beijinhos,

Gracinda

sábado, 7 de janeiro de 2012

Luis Dourdil-Pintores Portugueses do Século XX - Palácio dos Coruchéus


Perto da Biblioteca Municipal, sita no Palácio Galveias,existe uma das mais notáveis residências nobres lisboetas do séc. XVII. No início da década de setenta foi criado o Centro de Artes Plásticas dos Coruchéus. Concebido e construído à semelhança dos ateliers de Paris patrocinados por André Malraux.  Trinta e seis ateliers distribuídos a artistas plásticos,sendo a renda de “um conto e quinhentos” não era fácil de pagar – o ordenado de um professor em Belas Artes primava, então, pela modéstia. Mas havia tertúlia! Amizade! Luis Dourdil, Luis Rodrigues,Ribeiro Farinha,José Alarcão,Manuel Viana,Luis Filipe de Abreu,Manuela Pinheiro, Mário Silva, Victor Belém, Soares Franco, António Vidigal, Sérgio Pombo, Gracinda Candeias, Isabel Laginhas, Laranjeira Santos, Rafael Salinas e Soares Branco, foram e são alguns entre outros que por ali passaram. Na altura, respeitadas as necessidades dos artistas que ali construíam obras e percursos, Dorita Castelo Branco teve a rampa que era indispensável para que na cadeira de rodas pudesse trabalhar.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Luis Dourdil-Pintores Portugueses do Século XX

PINTURA MURAL DE  LUIS DOURDIL (5om2)datada de 1967 no Restaurante Panorâmico de Monsanto. 


Luis Dourdil-Pintores Portugueses do Século XX

  • Sumbe é uma Cidade e Município de Angola, capital da província do Kwanza-Sul.
    Até 1975 designou-se Novo Redondo.

  • Catedral do Sumbe arquitectura de Francisco Castro Rodrigues
  • Tapeçaria do pintor Dourdil (1966) junto ao púlpito.
Tapeçaria de Luis Dourdil manufacturada na fábrica de tapeçarias de Portalegre.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Luis Dourdil e a sua amiga e Pintora Gracinda Candeias-Pintores Portugueses do Século XX


 NATAL

 Nos idos anos 80, por várias razões não passei o Natal com a família durante 4 anos.
Ia sempre para fora e numa ida a Paris baralhei-me nas datas e perdi o avião!!!
Estava sem lençõis porque tinha posto tudo na lavandaria, lembrei-me logo do Dourdil e fui pedir auxilio e diz-me ele:



- Então vai passar o Natal sózinha?
- Sim!Disse-lhe
- Era o que faltava !Venha cá para casa!
 Daí em diante, durante anos, passava sempre a véspera de Natal; mesmo com os meus pais eu dizia sempre:
 Primeiro vou ao Dourdil!
 Nunca mais me esqueço as noites calorosas com a Olinda o Luís Fernando e o Adriano de Gusmão que      também lá passava.
Até hoje lembro-me também de comer o melhor perú da minha vida, nunca mais comi um igual!

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Luis Dourdil e a sua amiga e Pintora Gracinda Candeias-Pintores Portugueses do Século XX

«A DISSONANTE»...
Uma das vezes que fui ao atelier do Dourdil, estava ele numa dúvida terrível! faltava ali uma cor, mas que cor? - uma mais viva talvez... disse eu, oh Gracinda! acabou de me resolver o problema! A dissonante, pois está claro! O que falta é uma cor dissonante.... a partir desse dia quando ia ao meu atelier, brincava comigo e dizia: então já pintou a dissonante? riamos imenso quando contávamos na Brasileira do Chiado, mas não revelávamos o segredo! até numa conversa faltava a «dissonante»...ah! ah!!

Luis Dourdil e a sua amiga e Pintora Gracinda Candeias-Pintores Portugueses do Século XX



quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Luis Dourdil-Pintores Portugueses do Século XX

Posted by Picasa
"Dourdil continuarás pelo tempo a existir em mim, tanto como conselheiro, como artista ,onde tanto bebi da tua arte.
Obrigado".
Antonio Sem

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Luis Dourdil e a sua amiga e Pintora Gracinda Candeias-Pintores Portugueses do Século XX


Os Amigos
Os amigos amei
despido de ternura
fatigada;
uns iam, outros vinham,
a nenhum perguntava
porque partia,
porque ficava;
era pouco o que tinha,
pouco o que dava,
mas também só queria
partilhar
a sede de alegria —
por mais amarga.

Eugénio de Andrade, in "Coração do Dia"
Posted by PicasaLembrar teus carinhos induz 
a ter existido um pomar
intangíveis laranjas de luz
laranjas que apetece roubar.

Teu luar de ontem na cintura
é ainda o vestido que trago
seda imaterial seda pura
de criança afogada no lago.

Os motores que entre nós aceleram
os vazios comboios do sonho
das mulheres que estão à espera
são o único luto que ponho.

Natália Correia, in "O Vinho e a Lira"

Luis Dourdil-Pintores Portugueses do Século XX


Posted by Picasa"Fiz um conto para me embalar
Fiz com as fadas uma aliança.
A deste conto nunca contar.
Mas como ainda sou criança
Quero a mim própria embalar.

Estavam na praia três donzelas
Como três laranjas num pomar.
Nenhuma sabia para qual delas
Cantava o príncipe do mar.

Rosas fatais, as três donzelas
A mão de espuma as desfolhou.
Nenhum soube para qual delas
O príncipe do mar cantou".

                   Natália Correia

Luis Dourdil-Pintores Portugueses do Século XX


Manto de seda azul, o céu reflete
Quanta alegria na minha alma vai!
Tenho os meus lábios úmidos: tomai
A flor e o mel que a vida nos promete!

Sinfonia de luz meu corpo não repete
O ritmo e a cor dum mesmo desejo... olhai!
Iguala o sol que sempre às ondas cai,
Sem que a visão dos poentes se complete!

Meus pequeninos seios cor-de-rosa,
Se os roça ou prende a tua mão nervosa,
Têm a firmeza elástica dos gamos...

Para os teus beijos, sensual, flori!
E amendoeira em flor, só ofereço os ramos,
Só me exalto e sou linda para ti!

Florbela Espanca, in "A Mensageira das Violetas"

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

ESGRAFITO DE LUIS DOURDIL



O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia,
Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia
Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia.

O Tejo tem grandes navios
E navega nele ainda,
Para aqueles que vêem em tudo o que lá não está,
A memória das naus.

O Tejo desce de Espanha
E o Tejo entra no mar em Portugal.  
Toda a gente sabe isso.
Mas poucos sabem qual é o rio da minha aldeia
E para onde ele vai
E donde ele vem.
E por isso porque pertence a menos gente, 
É mais livre e maior o rio da minha aldeia.  

Pelo Tejo vai-se para o Mundo.
Para além do Tejo há a América
E a fortuna daqueles que a encontram.  
Ninguém nunca pensou no que há para além
Do rio da minha aldeia.

O rio da minha aldeia não faz pensar em nada.  
Quem está ao pé dele está só ao pé dele.

 XX - O TEJO É MAIS BELO
(do "Guardador de Rebanhos" - Alberto Caeiro)



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terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Do livro- Resposta a Matilde- de Fernando Namora "DOIS OVOS AO FIM DA TARDE" conto verídico sobre Luis Dourdil

Quando o homem saiu de casa,pensou apenas em que lhe saberia bem ir a pé até ao fundo da Alameda.Não eram muitas as vezes em que podia voltar as costas ao autocarro e dar-se a esse apetecido exercício.Sem o aguilhão do relógio.Sem moer-se com atrasos.Tinha um emprego que o enjaulava das tantas da manhã (que cedo acordavam as manhãs!) às tantas da tarde (que ronceiras eram as tardes!),com as nádegas pregadas a um banco alto, o cavalete na frente,a mão contrafeita.a sujar papéis de olhos fechados, a cidade espalmada nos vidros da janela como um rosto triste (mas a tristura era dele,que a via tão perto e tão distante), e quando, enfim, se abriam as portas da prisão pouco mais tempo lhe restava do que,num rufo,tomava a bica no café mais próximo.Depois vinha o jornal lido no autocarro,o jantar e o serão que não chegava a nada para o muito que lhe daria gosto fazer.A mulher nem se atrevia a propor um passeio.Sabia respeitar aquela necessidade de iludir o sonho e tricotava enquanto ele,numa nuvem de cigarros,refundia, noite após noite,o que começara na véspera. Havia os domingos, é certo,mas os domingos eram a ressaca da semana:a indolência merecida ou desenganada,o pequeno almoço na cama,a música do rádio,a matinée no cinema do bairro e,sobretudo,o fastio das ruas em que a vida se adiava.A verdade é que,quando chegava o Verão,sentia as juntas perras,a moleza pegada ao corpo e,debalde,fugia ao langoroso convite dos cadeirões das esplanadas.Valia-lhe ser um peso pluma.Mas agora que,por um acaso da sorte e valendo-se de um duvidoso atestado de doença,interronpera o emprego para aceitar aquele trabalho,não desperdiçaria o ensejo de um pouco de marcha diária,já que da sua casa à Alameda nem dois quilómetros distavam.Marchar, numa rotina de sedentarismo (tanto os da alma como os dos músculos) também sabia a libertação.O homem, pois,saiu de casa a foi ao atravessar a rua que se lembrou dos ovos.Sem os ovos, nada feito. Estudara as coisas com rigurosa minúcia.Desavesado a certos lugares,e como nunca acompanhara a mulher nas compras,voltou atráz e gritou para cima, pelos roufenhos do intercumunicador:
- Maria,onde poderei encontrar ovos?
A mulher,com risos na voz,elucidou-o:
-Fica-te em caminho.Na Charcutaria"Pôr do Sol".
A Charcutaria "Pôr do SOL".Essa, conhecia ele.Ali a dois passos.Tomava lá café,nada mau,e só um herege podia ficar indiferente à exuberância da apetitosa montra,desde chourições aos papos de anjo de Amarante.Ovos,numa luxaria daquelas?A ideia intimidava-o.Entrou, porém armando-se com o alibi de precisar de cigarros,para o caso de se sentir em apuros.Viu-se,por momentos, aturdido com o labirinto de escaparates,mas logo um senhor mavioso,que o observara de longe,destes para quem"o cliente tem sempre razão",veio desembaraça-lo de hesitações.
-Tem a bondade.Vossa Excelência que deseja?
Adiou a resposta com um distraido ou ainda perturbado:
-Boa tarde.
-Boa tarde a Vossa Excelência. Deseja então...
-Ovos.
-Concerteza.Tem por onde escolher.
-Queria dos melhores.
O logista, que parecia passado a ferro de cima a baixo,assentiu numa reverência e,guiando o cliente até uma pilha de tabuleiros,apontou com a mão esmerada:
-Aqui os tem Vosssa Excelência.
O homem pegou num,dos ovos,rodou-o vagarosamente entre os dedos, avaliou-lhe o peso e, quando ia a apreciá-lo contra a luz,o logista interrompeu-o,já numa ênfase um tudo- nada agastada:
-São de primeira qualidade.Com carimbo.Vêm directamente de Albarraque,do produtor.Ovos saloios-e diluiu o olhar impaciente pelo que se passava em redor.
O pormenor do carimbo é que pareceu impressionar o cliente.Pois, lá estava o carimbo.Para quem não estivesse afeito aos códigos de mercancia,poderia parecer outra coisa,mas eram mesmo letras,números-um carimbo.Ficava a saber que por aí,se conheciam os ovos de confiança.
-Bem,já vejo que são bons.E suponho que frescos.
-Sem dúvida.
O logista aguardou uma ordem,ou seja.que o freguês mandasse embalar a quantidade desejada,e,de raspão,atentou em que ele nada trazia consigo,nem um saquinho disfarçado,que servisse para transportar os ovos.Mais que ia dizer-lhe para mandar a encomenda a casa.
-Quantas dúzias?
-Quero dois.
-Disse duas?
-Dois.Dois ovos.
-Vossa Excelência manda.
A imperturbabilidade do logista era um modelo de controle profissional das emoções.De calo no ofício.E também de natural fidalguia,perfeitamente compatível com uma actividade que alguns tinham por servil.Um senhor,enfim.Chamou a empregada para embrulhar os dois ovos e agradeceu como se tivesse tratado de uma compra choruda.
O homem esteve a trabalhar toda a tarde...
No dia seguinte, a cena da compra simplificou-se.
O senhor de falas corteses vio-o do balcão,antecipou-se a um marçano,talvez para que não houvesse perda de tempo e inquiriu:
-Hoje,Vossa Excelência deseja...
-Os ovos.Dois.Com carimbo.
Enquanto os escolhia no tabuleiro,o logista repetiu:
-Dois.Com carimbo.Ei-los.Mais nada?
-Mais nada.
O outro franziu a testa ainda lisa.Só a testa.Mas, ao convidar o freguês a acompanhá-lo na cariciosa mirada pelos artigos expostos,via-se que lhe era dificil aceitar o vexame de uma compra que não justificava que alguem pusesse os pés na mais ordinária das lojas.
-Temos um esplêndido queijo de Azeitão.Talvez Vossa Excelência...Mas se prefere da Serra...
_Não quero queijo.
-Ou fiambre.Não encontra que se compare.
-Apenas os ovos.
-Vossa Excelência manda.
À despedida,foi com um tempero de discreta ironia que o senhor afável perguntou;
-Vossa Excelência ficou satisfeito com os ovos de ontem?
-Eram perfeitos.
-Ainda bem.Nunca tivémos uma reclamação.
E o mesmo diálogo com a ocasional variante de meias palavras de embuçada intenção,nos dias que se seguiram.Mas,à quarta vez,depois de o logista o seduzir em vão,com atuns,salpicões,alheiras de Mirandela,intrigado com a história dos ovos... bastar-se com os ovos em três jantares sucessivos?(e o almoço,com mil diabos?) e nem ao menos se consolar com um naco de presunto ou uma talhada de queijo!...Por isso, o estranho cliente era uma carga de ossos.
-Boa tarde.
-Boas tardes a Vossa Excelência.
-Dois ovos como os de ontem.
-Ou como os de anteontem...
Sorriam ambos.A revalar para uma intimidade constrangida.
E estavam naquilo.à mesma hora.E,por ser à mesma hora,o logista já o esperava à porta.
Os dois ovinhos do costume,não é verdade?
-Dois.
-A que horas fecha a charcutaria?
-Às dez, caro senhor.
-Então passarei a vir a roda das nove.
O logista passou a mão branda pelos cabelos grissalhos,que a brilhantina escurecia e domesticava.Encorajava-se a um reparo.
Vossa Excelência desculpará a inpertinência:mas porque não leva de cada vez uma duzia de ovos,uma duzia ou outra quantidade qualquer,evitando o incómodo de...
-Prefiro assim.
Vossa Excelência manda.
Os gestos do logista,porém,a custo dissimulavam o nervosismo,para não dizer a irritação.Aguardava o cliente à hora prevista...
-Vossa Excelência tem frigorifico?
-Tenho,mas porque me pergunta?
-È que se permite uma sugestão,poderia abastecer-se com uma quantidade razoável de ovos,visto que, no frigorifico,consevam-se muitos dias.
-Bem sei.Mas quero-os bem frescos.Dois de cada vez.
-Vossa Excelência é casado?Perdoe o atrevimento.
-Atrevimento?De modo nenhum!Sou casado,sou.Há uns bons anos.
-E janta, portanto, em casa.
-Quase sempre.
-Ah.
E não ousou ir mais longe.Em cada dia ,que entre ambos se insinuava uma convivência de ambiguidades,o logista avançava em passo miúdo na tentativa de decifrar o mistério...
-Pelo que deduzo, Vossa Excelência gosta  muito de ovos.
-Nem por isso.
Era demais.Aquilo excedia o que a curisidade e a compostura de um homem poderiam suportar.Sentia-se humilhado.Sentia-se humilhado desde o primeiro dia,para que negá-lo?Embrulhou os ovos à má cara,despediu o freguês
sem a saudação habitual.Porém num repente,foi sobre ele antes que passasse a porta,disse:
-Então os ovos são para alguém da familia...
-Não são para mim.
O logista mais não pôde que abrir a boca...
-Na vez seguinte,o logista escolheu com enfatuado desvelo os dois ovos...
-Sabe Vossa Excelência que tenho prazer em vender ovos?É que, para mim são um pitéu.Omelete com salsa...
-Pois eu nem com salsa nem sem ela.
-Ah.
No dia seguinte o logista aguardava-o junto ao balcão acompanhado de uma senhora um rapazola de uns catorze anos...,o grupo que paracia posar para um retrato,fitava-o com uma avidez imbuída de censura e reserva.Quanto ao logista entre o acusador e o triunfante:"Eu não vos dizia?É este."Aproximou-se de voz melada e irónica:
-Os dois ovinhos do costume,claro está.
-Aqui tem Vossa Excelência.Bom proveito.
No dia seguinte...
-Perdoe Vossa Excelência:gostaria de confessar uma curiosidade.
-Estou a ouvi-lo
-Bom o caso é este:os ovos,os dois ovos diários. não são para o senhor comer,não são para ninguém comer,pois foi o senhor a dizê-lo;então para que servem?
-Muito simples: para pintar.
O logista recuou,varado pela zombaria...,apontou o dedo trémulo...
-Diz Vossa Excelência que são para pintar.Tem graça.Carradas de graça.Para pintar de amarelo, bem entendido.
-De azul.Ou de violeta,vermelho,negro.-E após ter sublinhado uma pausa,falando espaçadamente e com uma deslavada
inocência:-Mas às vezes também de amarelo,de facto.
Olhando à roda,não fosse alguém reparar no diálogo,o logista retorquiu,sem já moderar o sarcasmo:
De azul , de preto, de violeta.Pintando!
-Com ovos
-O senhor, o senhor!-Estava prestes a pôr de banda todo o resguardo nas suas reações.Estava preste a esquecer,pela primeira vez na vida,que um cliente é um cliente.Mesmo sendo tonto ou lunático.Ou provocador.-Mas pintar aonde?
-Numa parede.No fundo da Alameda.Naquelas obras ao lado do Cinema.
-Ao lado do...No fundo da Alameda.
Há um tapume.è nessas obras.
-Mas isso é um café.
Vai ser Grande.O maior de Lisboa.
-A pintar.
-Com ovos,sim.O senhor pode ir lá ver.
-E vou .Quando?
-Quando quizer.Agora mesmo.
O logista ainda incrédulo disse e poderei ir depois de fechar a charcutaria?
-Claro que pode agora já sabe o sitio.
-Então lá estarei.
O homem divertido,foi saboreando a conversa ao longo da rua.Chegou à Alameda sem dar por isso.Começou a preparar a emulsão no almofariz.Aquilo servido numa travessa passaria por maionese.De um lado .a gema de ovo misturada com o óleo de linhaça;do outro o friso de latas com os pigmentos.Como estes eram uma poeira seca,aderiam ao pincel molhado na emulsão.Nada de colas.Estudara a técnica com todo o vagar.Lera alfarrábios,fizera experiências.A gema de ovo fora até ao século XVI um dos veículos das tintas.Os antigos não eram tolos.Para eles a arte começava na oficina. Interessara-lhes a gema de ovo, cuja albumina ligava perfeitamente a água ao óleo.Pintura co séculos de confirmação,resistindo às maiores usuras.Tinha de resultar.Mas quanto fizera sofrer o pobre logista!Exagerara.Sem premeditação,é certo empurrado pelas circunstâncias,pelos espantos,pelos tais laconismos.No entanto, talvez o enigma tivesse agitado a monotenia daquele viver.Batiam à porta, devia ser ele.Disse para o ajudante:
-Vai abrir  que certamentede é o senhor dos ovos.
-Procuro uma pessoa que pinta aí nas obras...,sentiu-se engolido por um tunel de surpresas:andaimes,o esgazeamento
de luzes crua.Não viu logo o seu cliente,porque este sumia-se no poleiro de cavaletes.Mas de lá lhe chegou uma vóz familiar:
-Trepe a essa mesa é mais fácil.
Levantou a cabeça para o alto,na direcção das lâmpadas que tinham o feitio de olhos de rã.Uma vasta parede de cal e areia, por onde progredia,uma labareda de cores,a incendiar os esboços de carvão,representando pessoas com o ar extasiado de quem aguarda um cometa no céu.Ei-los,os vermelhos,os azuis,,os amarelos.Aceitou a mão que o ajudava.O cliente vestia um fato de macaco e,na face encovada,ondeava a magia das sombras.
-Repare-dizia-lhe o pintor,numa inflexão paciente e bem humorada-,repare nesse almofariz.E nas cascas dos ovos.É assim que se fáz a mistura.Um pouco de pó vermelho e aí temos o pincel a fazer das suas.
O visitante permanece silencioso.Esforça-se por recuperar a sua personalidade de logista...
-Razão tinhao Vossa Excelência.Dois ovos por dia,claro.Não precisava de mais.Desculpe ter duvidado.Confesso que ainda me sinto confuso.Vender ovos para alguém pintar!-Apoiou-se no estrado,fitando o cliente com serena admiração  : -Tenho a honrra de estar falando com...
-Luis Dourdil,pintor.
-Agradecido a Vossa Excelência.O pior é que a minha mulher não vai acreditar.
 Resposta a Matilde- de Fernando Namora  "DOIS OVOS AO FIM DA TARDE" conto verídico sobre Luis Dourdil           

MEMÓRIAS DE UMA LISBOA DE OUTRA ÉPOCA-DOURDIL REALIZOU /FRESCO/PINTURA MURAL- 1955 CAFÉ IMPÉRIO EM LISBOA

Destaque, Mural de Luís Dourdil , o painel de azulejos de Jorge Barradas e esculturas de Martins Correia




Cassiano Viriato  Branco  uma das referências fundamentais da arquitectura modernista em Portugal que não se limitou a projectar na capital, deixou a sua marca por todo o território nacional.



Numa das minhas visitas a Lisboa, e a conselho da minha filha mais velha, foi-me sugerido ir comer um bife ao Café Império.
Já não entrava no "Império" há pelo menos vinte e cinco anos. Aí chegados, viajei no tempo e lembrei-me de imediato do "Império" de outros tempos, com o seu trintanário à porta vestido com o samarrão verde escuro com o seu imponente acordoamento dourado que lhe povoava peito, conferindo-lhe um ar imperial a condizer com o nome do estabelecimento.
Desço as escadas e à medida que o faço, novas memórias me assaltam. Revejo a enorme sala, onde clientes e empregados estão envoltos numa nuvem de fumo. As enormes ventoinhas fazem a extracção possível. Atarefados empregados fardados de jaqueta branca e calça preta, atendem a clientela que à volta das mesas redondas conversam em animadas tertúlias, enquanto estes manejam bandejas pejadas de bicas e copos de água num raro exercício quase...quase circense!
Engraxadores chegaram a ser cinco e empregados de mesa 70, conforme me confidencia José Gonçalves, empregado na casa desde 1971 e o último depositário de uma memória que agora o novo Café Império quer preservar.
Numa Lisboa de brandos costumes, era nos cafés que se estudava, conspirava e “engatava”. Pela manhã, bandos de estudantes mergulhavam em calhamaços de empinar matéria, enquanto se perdiam em eternidades no exercício de misturar o açúcar com o café no rodopio infinito da minúscula colher.
Pela tarde chulos de penteado acabado de fazer no barbeiro da esquina, piscam o olho a fêmeas que se dão por ali “ à morte” num exercício de presa e caçador, sendo que normalmente é o caçador que é caçado.
O Império fechava às 2.30 horas e pela noite dentro servia os famosos bifes que lhe trouxeram fama e rivalidade com os outros, havendo mesmo partidários de um e outro naco de carne banhado em molho de entrada.
Publicado na Revista "30 Dias" de Maio de 2009